Duas exposições gratuitas e deliciosas para aproveitar até domingo (30/08)

Macanudismo – O mundo encantado de Liniers
A mostra reúne tirinhas, desenhos e contos ilustrados do quadrinista argentino.
Liniers nos leva a um universo delicioso e fantástico, no qual temos vontade de entrar e por lá ficar junto a um de seus personagens. Suas histórias têm humor e sensibilidade ao mesmo tempo, sempre com uma visão otimista sobre a realidade e um pouco de ironia, além de muitas referências a outras artes (música, cinema, pintura etc.).
As capas de disco ilustradas e as animações em stop motion presentes na mostra também evidenciam as diversas possibilidades criativas das quais o artista se utiliza tão bem e com o mesmo humor e delicadeza das tirinhas.

“Macanudo” tem o sentido de “extraordinário”, “magnífico”,  ou de “bacana”, e foi o nome dado pelo próprio autor a suas tirinhas quando começaram a ser publicadas diariamente em jornal.
Junto com a exposição, há também uma lojinha onde estão à venda algumas publicações de Liniers, canecas, cadernos de anotações e até meias ilustradas com seus personagens.

Arnaldo Antunes – Palavra em movimento
A música é uma entre tantas habilidades criativas de Arnaldo Antunes. Como o próprio nome da exposição sugere, o artista coloca palavras em movimento, transformando-as em poesia por meio de áudio, vídeo, desenho,  publicidade, caligrafia, escultura e outros, misturando diversas linguagens em uma mesma obra. Ora temos uma escultura feita com palavras, que é também um poema-visual; ora temos um vídeo, que nos apresenta um poema formado a partir de fotografias de placas publicitárias.

A poesia de Arnaldo Antunes pode nos pegar desprevenidos, como quem encontra uma frase inscrita em um muro em meio ao trânsito. Assim como a cidade, sua poesia é dinâmica, concreta e cheia de sons, escondida em pequenos espaços a serem descobertos pelo leitor, entre prédios, muros e asfalto.

Informações em:
http://www.correios.com.br/sobre-correios/educacao-e-cultura/centros-e-espacos-culturais-dos-correios/centro-cultural-sao-paulo
Dicas:

– O Centro Cultural dos Correios, onde estão as duas exposições, é um espaço que vale muito à pena visitar.
– Se você for de metrô, desça na estação Anhangabaú (linha vermelha) e suba as escadas em direção à R. Xavier de Toledo.

– No  caminho, você vai passar pela frente do Theatro Municipal e depois, pela Praça das Artes. Repare que são duas arquiteturas de estilo e época completamente diferentes e igualmente incríveis.

Exposição Entre a Obra e a Dobra, na Biblioteca Mário de Andrade

Até sexta-feira (29), na biblioteca Mário de Andrade, é possível visitar a exposição Entre a obra e a dobra, resultado do curso Livro de Artista, realizado na instituição no semestre passado.

Oportunidade encantadora de ver trabalhos delicados, de poder observar os livros como objetos artísticos para serem manuseados, lidos, montados, desmontados, contemplados, percorridos.

Fiquei muito orgulhosa em ver o trabalho da amiga Luciana Castilho ali exposto, resgatando a memória por meio da ressignificação de um objeto do cotidiano.
E me senti contente em reforçar que o livro não é só objeto de informação (ou de pura comercialização da informação), mas também de criação em pelo menos dois momentos: o do autor e do leitor.

Toda escrita só se concretiza no outro que lê e a interpreta a partir da sua própria experiência de vida e suas próprias referências (culturais, de leitura etc.). Cada livro/obra ali presente me trouxe uma lembrança, por vezes no campo racional ou técnico, por vezes no campo sensorial ao tocar, por exemplo, um livro de tecidos e lembrar de uma toalha de crochê da época de infância, ou de poder reconstruir um livro que pode se dobrar e desdobrar de diversas maneiras, ver uma imagem de um lugar conhecido na fotografia de um livro feito por outra pessoa e lembrar de uma história pessoal, caminhar em volta de um livro em forma de móbile ou ler uma história que outra pessoa escreveu e perceber nela semelhanças com a minha própria história.

Para mim, o livro é isso: um jeito que alguém muito generoso encontrou para dividir com o mundo um pouco do que se passa dentro de si. E que eu, leitora, posso ler cem anos depois da publicação e sentir que tenho algo em comum com aquele indivíduo.


Informações:

De 25 de junho a 29 de agosto de 2015, de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h.
Sala Sérgio Milliet da Biblioteca Mário de Andrade
Entrada gratuita

Café secreto: Alice

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Um café super aconchegante, perto do metrô Paraíso, que leva esse nome em homenagem à história de Alice no País das Maravilhas. A decoração é divertida, não dá vontade de levantar dos sofás fofos coloridos e sempre tem livros de arte, literatura ou gastronomia para folhear, além de uma caixa para troca de livros (é só levar um livro de literatura que você não queira mais para doar e pegar um que alguém deixou para você, não é lindo?) e de local para deixar a bicicleta.

Gosto do café expresso, mas prefiro o coado (da Bike Café). Para acompanhar, salgados ou bolos fresquinhos, alguns sem glúten, nem lactose. Os pães de fabricação própria artesanais são deliciosos e estão presentes em sanduíches feitos na hora, como o de cogumelos e o de queijo quente com molho pesto (meu preferido, nham, nham, nham!).

Vale à pena experimentar o frapé de baunilha que, aliás, é feito com baunilha de verdade e não com a essência artificial que estamos acostumados a ver em mercados.

O chá gelado com leite também é uma boa opção e, às vezes quando estou num momento criança feliz de bem com a vida, fico reparando na formação de belos desenhos dentro do copo enquanto misturo o leite com o chá. Isso me lembra das experiências científicas no laboratório de química da escola. Não deve ser proposital, mas eu gosto do bônus visual.

O local também serve almoço (ainda não provei, se alguém provou, conte o que achou nos comentários, please!), tem opções de sanduíches temáticos, que levam o nome de personagens da história de Alice no País das Maravilhas, e cervejas artesanais.

É um desses lugares um pouco escondidos da cidade em que tudo tem um toque artesanal e a gente se sente um pouco em casa, sabe?

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Endereço: Rua Cubatão, 305 – Paraíso, São Paulo – SP

Telefone:(11) 4327-7957

Horário: de segunda a sexta das 8h às 21h, sábados das 9h às 15h

http://cafealice.com.br/

https://pt-br.facebook.com/alicecafe305

Um singelo desejo paulista

De vez em quando eu passo pela galeria onde ficava o Cine Gemini e me lembro de que há uns dez anos eu assisti O Segredo de Brokeback Mountain ali. Não me recordo se vi pessoas espantadas com as cenas mais quentes entre os dois protagonistas na tela e acredito que demonstrações afetivas em filmes (novelas ou qualquer outra mídia), independente de gênero, não deveriam causar o espanto que têm causado ultimamente. Mas esse papo é para um outro post. Lembro de achar o filme bem bonito, os atores lindooooooos, as paisagens mais incríveis ainda e, ao mesmo tempo, de pensar “por que não conheci este cinema muito antes?”.

A relação com a sala de cinema foi paradoxal, pois, naquele momento, o Gemini já estava para fechar as portas e precisava de uma boa reforma. Se por um lado eu achava que a qualquer momento poderia aparecer uma barata cinéfila (de 1975) ali, por outro, eu me sentia voltando no tempo naquelas poltronas vermelhas e pensava em como seria aquele espaço logo que foi inaugurado, quase uma década antes de eu nascer. Aí, eu esquecia a imagem das baratas (Joe e as Baratas era muito comercial para ser exibido ali, rs).

Hoje, voltando para casa, passei lá em frente de novo. Vi a entrada do cinema quase do mesmo jeito (salvo o fato de não ter cartazes de filmes) e fiquei pensando em como seria bom se o Gemini tivesse o mesmo fim (ou recomeço) que o Cine Belas Artes (agora Caixa). Cheguei a ler uma reportagem que falava sobre a possibilidade de o Cinesesc usar as salas durante a reforma, mas não vi mais nada a respeito que confirmasse isso. Bem que poderia ser verdade…

Autorretrato

Termino de me vestir e noto a presença de uma menina no espelho… Uma mulher, embora eu ainda resista a chamá-la assim.

Ela me lembra alguém que eu conheço, mas não sei exatamente de quem se trata. É a personagem principal de um sonho nebuloso. Deve ter uns trinta anos.

Corpo pequeno, de formas arredondadas. Rosto delicado, olhos castanhos, cabelos cacheados. Um olho de tigre em evidência na orelha esquerda. Um cacho maior do cabelo cobrindo a orelha direita. Sua expressão me passa confiança lá do outro lado.

A boca rosada de lábios volumosos. As bochechas meio avermelhadas, o queixo arredondado. Uma beleza particular e ao mesmo tempo discreta que me faria querer fotografá-la disfarçadamente se a visse pela rua. Encaro-a em silêncio. Ela não percebe meu olhar, mas parece me observar também.

Alguém bate na porta e me chama. Estou pronta, mas uma sonolência toma conta de mim.

“Você está linda”, eu ouço, e olho para o lado. É comigo. Volto até a porta para confirmar se a mulher ainda está lá no espelho. Já se foi. Lembro que ela já apareceu em outros momentos, mas eu me escondi.

Será que um dia desses ela resolve ficar para sempre?

Plano de governo

‘No meu mandato, todas as escadas de descida serão substituídas por escorregadores com piscina de bolinha na saída.

Serão proibidos apartamentos sem sacada, sacadas sem plantas, casas sem doces e crianças sem brinquedos.

As cáries serão feitas de chiclete e facilmente removíveis com algodão doce.

Toda doença será curada com torrões de açúcar. Em casos mais graves, com pílulas de chocolate. E quem não gostar de doces poderá se tratar com pastéis de feira, tapiocas de mãe ou pães de vó.

Não haverá frio, nem seca, nem fome.

As gaiolas de pássaros serão extintas, e os zoológicos, banidos, pois os animais serão livres.

Os pais trabalharão meio período para terem mais tempo com os filhos, trocarão as novelas por livros e contarão histórias bonitas antes das crianças adormecerem. Mas também entenderão quando as crianças crescerem e quiserem andar com os próprios pés.

As guerras serão resolvidas em partidas de videogame ou corridas de obstáculos e, no final do jogo, os adversários beberão juntos para comemorar o fim da guerra.

Usaremos a internet para coisas boas e produtivas.

Poderemos escolher a hora do dia em que teremos mau humor, se vamos dormir de dia e trabalhar à noite ou trabalhar à noite e dormir de dia.

O amor será uma obra de domínio público.

Todo adulto terá garantido por lei o direito de dar cambalhotas e saltar quando estiver alegre, de dançar quando estiver apaixonado e de pedir abraços quando estiver triste sem ser criticado por isso.

Nas escolas, aprenderemos coisas sérias como poesia, arte, consciência e respeito. Saberemos coletar dados e pesquisar de verdade. Dominaremos a arte do cálculo, da escrita e da fala. Mas, antes de qualquer coisa, aprenderemos a ouvir os outros e a olhar nos olhos.

Outras sugestões serão avaliadas pelos nossos assessores.

Um forte abraço.’

Tempo

Entro no museu e a primeira foto parece me hipnotizar, a ponto de não me deixar lembrar de quase nenhuma outra imagem vista naquele dia.

É tão simples e ao mesmo tempo tão inquietante. Um mundo de possibilidades na simplicidade das coisas. Uma janela, um banco de madeira velho com um calço em um dos lados. Céu bem azul com pequenas nuvens formando um desenho abstrato. Rachaduras na parede velha da casa. Imagino uma mãe amamentando o filho naquele banco e sou capaz de ouvir um pequeno choro. A criança já andando e brincando perto do banco. Um menino um pouco mais velho subindo no banco e olhando pela janela, o banco oscilando e o pai colocando um calço para equilibrá-lo. O menino alcançando a janela, rabiscando no banco, estudando sobre o banco, apoiando a mala antes de partir. Um homem sentado no banco, vindo de longe para visitar os pais. E o mesmo cenário, talvez mais amarelado com o tempo…

Percebo que estou há quase meia hora observando aquela foto e resolvo ver o resto da exposição. Que importância tem o tempo?

Sonho

Todo dia a campainha de casa tocava e a mesma mulher do dia anterior aparecia na porta. Trazia uma travessa de bolo com sonhos gigantes que ela acomodava carinhosamente no pegador em forma de concha antes de passar para um saquinho de papel.

Era uma festa quando minha mãe nos deixava comprar um sonho (doce demais faz mal!). Muitas vezes meu irmão e eu disputávamos pelo pedaço maior do sonho açucarado e cheio de creme. Sonhar pela metade também era gostoso.

Quase duas décadas se passaram, e eu nunca mais provei um sonho tão delicioso e doce. Não sei se era a infância que dava às coisas uma doçura especial ou se era mesmo a “mulher do sonho”, como era conhecida no bairro, que cozinhava tão bem.

O que me impressionava, no entanto, não era o gosto do sonho, mas a impressão que eu tinha de que, por alguma mágica inexplicável, a vendedora de sonhos tinha sempre a mesma aparência e o mesmo sorriso. Ela não era uma adolescente, é verdade. Mas, por muitos anos, nunca observei qualquer mudança física que me fizesse suspeitar a passagem do tempo.

No final da adolescência, mudei de bairro. Depois, comecei a faculdade e o trabalho. Acabaram-se os sonhos de infância. Provei outros depois, mas nunca tão bons.

Às vezes, gosto de pensar que aqueles sonhos eram mágicos. Em cada pedaço que eu saboreava, era a própria infância que eu desejava. A mulher certamente também provava daquele sonho, e sonhava com a própria juventude. E por isso o tempo não passava para nós. Ou passava mais devagar.

Eu não tinha tanta imaginação para suspeitar que um dia pudesse pedir doces pela internet e recebê-los em casa. E, sinceramente, gosto mais de lembrar do sorriso da vendedora na porta.

Hoje, minha campainha quase não toca e, confesso, sou mais resistente a abrir a porta quando não é o correio. Mal conheço meus vizinhos. Mas se me oferecerem um sonho, minha resposta será sempre sim.

(Escrito em outubro de 2013)